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Metanol

Unesp Araraquara tem teste rápido e barato para detectar metanol em bebidas

Método desenvolvido por cientistas identifica adulterações em até 15 minutos

Rian Fernandes|· 5 min de leitura
Unesp Araraquara tem teste rápido e barato para detectar metanol em bebidas
Método desenvolvido na Unesp de Araraquara detecta metanol em whisky por mudança de cor na amostra Foto: Larissa Modesto

 

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Pesquisadores do Instituto de Química (IQ) da Unesp de Araraquara desenvolveram uma tecnologia inovadora para detecção de metanol e outras adulterações em bebidas alcoólicas. Criado em 2022, o método é descrito como simples, barato, rápido e eficiente, e já foi submetido a pedido de patente junto ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).

 

Apesar da relevância da invenção, especialmente diante do aumento de casos de intoxicação por metanol no Brasil, o teste ainda não foi levado ao mercado. De acordo com a assessoria da universidade, a falta de interesse por parte da indústria e de empresas fabricantes é o principal motivo da ausência de comercialização. 

 

A técnica foi idealizada para ser utilizada em destilados como cachaça, vodca e uísque, mas também pode ser aplicada na análise de gasolina e etanol, oferecendo uma ferramenta útil tanto para o setor de combustíveis quanto para o de eventos e entretenimento.

 

 

Como funciona o teste

 

O processo desenvolvido pelos cientistas da Unesp é composto por apenas duas etapas, com duração total de aproximadamente 15 minutos. A primeira consiste na adição de um sal específico à bebida ou combustível, o qual transforma o metanol presente em formol.

Na sequência, adiciona-se um ácido reagente que provoca mudanças visuais na coloração da amostra. A identificação é feita a olho nu, permitindo verificar se há presença de metanol e em qual concentração:

✔ Verde: amostra sem metanol significativo

✔ Verde amarronzado: presença entre 0,1% e 0,4%

✔ Marrom: entre 0,5% e 0,9%

✔ Roxo: de 1% a 20%

✔ Azul-marinho: de 50% a 100% de metanol

 

 

Figura ilustra os diferentes percentuais de metanol em amostras de etanol com base na cor formada após a aplicação do método.

 

 

Amostras de etanol vão se tornando cada vez mais escuras conforme a quantidade de metanol aumenta.

 

Segundo os pesquisadores, não é necessário mão de obra especializada para a realização do teste, tampouco a presença de laboratórios avançados. Isso amplia significativamente as possibilidades de aplicação do método em locais de uso cotidiano, como postos de combustíveis, eventos e estabelecimentos de vendas de bebidas.

 

Com a técnica da Unesp, a expectativa é que o custo seja de R$ 15 por teste. Atualmente, já existe no mercado um produto semelhante, utilizado para avaliar combustíveis por meio da análise de cores. No entanto, ele não tem capacidade de quantificar com precisão o teor de metanol.

 

 

Aplicação imediata em eventos

 

Para os cientistas, o uso do método desenvolvido em Araraquara poderia se tornar uma importante ferramenta de prevenção, especialmente em eventos de grande porte e estabelecimentos comerciais.

 

Larissa Modesto, bacharel e mestre em Química e autora principal da invenção, reforça que a tecnologia pode ser utilizada por promotores de eventos e donos de comércios para assegurar a procedência das bebidas.

 

 

“O promotor de eventos não pode organizar algo sem saber se a bebida que ele comprou é de procedência, e com isso colocar em risco milhares de pessoas que podem consumir os produtos e ter problemas de saúde”, alerta Larissa.

 

 

Marcos Monteiro, pesquisador do CEMPEQC (Centro de Monitoramento e Pesquisa em Química do IQ), também destaca a facilidade de aplicação: “Qualquer pessoa treinada pode executar o teste rapidamente. Por exemplo, o frentista de um posto pode testar um carregamento de combustível, ou o dono de uma casa de eventos pode verificar a qualidade das bebidas que vai servir. É uma ferramenta boa, barata e eficaz”, afirma.

 

 

Método aplicado para identificar metanol em amostras de whisky. 

 

 

Potencial desperdiçado

 

Mesmo com o potencial de salvar vidas e evitar tragédias, o método da Unesp de Araraquara não saiu do papel. Conforme informado pela universidade, empresas interessadas na produção em escala do reagente ou na comercialização do teste devem entrar em contato com a Agência Unesp de Inovação (AUIN) pelos e-mails: [email protected] ou [email protected].

 

 

Risco real à saúde

 

O metanol é uma substância altamente tóxica, e o consumo em excesso pode levar à cegueira e até à morte. A regulamentação vigente do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) permite, no máximo, 20 miligramas de metanol por 100 mililitros em bebidas destiladas, o que equivale a poucas gotas.

 

Até a manhã desta sexta-feira (3), o Brasil contabilizava 59 notificações de casos suspeitos de intoxicação por metanol, de acordo com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Desses registros, 11 já tiveram a presença da substância confirmada em exames laboratoriais.

 

 

Distribuição emergencial inclui 2 mil ampolas e análise laboratorial mais ágil em Ribeirão Preto

 

Diante deste cenário, o governo do Estado de São Paulo anunciou a distribuição de 2 mil novas ampolas de álcool etílico absoluto para o tratamento de pacientes intoxicados por metanol. Até então, os serviços de referência do estado já contavam com 500 unidades em estoque. A compra foi realizada pela Secretaria de Estado da Saúde e os insumos foram encaminhados aos centros de referência: Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, Campinas e São Paulo.

 

Segundo nota técnica do Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE), enviada aos 645 municípios e às unidades de saúde, a solicitação das ampolas deve ser feita diretamente aos centros de referência, acompanhada da ficha de notificação do caso suspeito de intoxicação por metanol. O governo estadual também informou que houve reforço na estrutura laboratorial para agilizar a confirmação da presença da substância no organismo.

 

Pelo novo protocolo, amostras de sangue ou urina coletadas em casos suspeitos passam a ser analisadas em até uma hora pelo Laboratório de Toxicologia Analítica Forense (Latof), do Departamento de Química da USP de Ribeirão Preto. A coleta é realizada nas unidades de saúde e o transporte das amostras até o laboratório é coordenado pelo Instituto Adolfo Lutz.

 

Em caso de suspeita de intoxicação por metanol, a orientação é procurar imediatamente um serviço de emergência médica e acionar pelo menos uma das instituições de referência:

✔ Disque-Intoxicação da Anvisa: 0800 722 6001;

✔ CIATox da sua cidade: serviço de orientação especializada (lista completa aqui);

✔ Centro de Controle de Intoxicações de São Paulo (CCI): (11) 5012-5311 ou 0800-771-3733 (ligações de todo o país).

 

Também é fundamental identificar outras pessoas que possam ter consumido a mesma bebida e orientá-las a procurar atendimento médico imediato. A demora no diagnóstico e no tratamento aumenta consideravelmente o risco de complicações graves e pode levar à morte.

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